A palavra experiência é uma das mais discutidas e difíceis de nossa tradição ocidental. Não poderemos aqui desdobrar todo o leque de seu rico significado. Restringir-nos-emos à perspectiva essencial que nos permite articular Deus como experiência dentro de nossa história pessoal e coletiva.
Talvez a etimologia da própria palavra experiência nos forneça a primeira achega à sua compreensão. Experiência é a ciência ou o conhecimento (ciência) que o ser humano experimenta de forma dogmática e fundamentalista, portanto manifesta um sa¬ber não verificável, que não subsiste nem re-siste em con¬tato com a realidade experimentada.
A ciência que resulta da ex-peri-ência não é mera sensa¬ção de um objeto. É a síntese de toda uma série de abordagens do objeto (peri: "ao redor de", "em torno de"). Já Aristóteles notara muito bem que a experiência {emparia) não resulta de uma percepção isolada, mas constitui uma síntese de muitas percepções e combinações reunidas, naquilo que possuem de comum, dentro de um modelo esquemático (Met. 980b). Pela experiência o objeto se faz cada vez mais presente dentro de quem quer conhecer, na medida em que ele se abre mais e mais ao objeto c o estuda de diferentes ângulos. Um médico experimentado é aquele que se confrontou muitas vezes com a mesma doença sob os mais diferentes sintomas, sob formas e circunstâncias as mais diversificadas a ponto de não mais se surpreender ou se enganar. Ele conhece simplesmente. Não tanto porque estudou em livros - isso também -, mas porque esteve às voltas, concretamente, com a doença e conheceu-lhe os sintomas. O modelo que elaborou da doença, combinan¬do experiência vivida com ciência dos livros, é um modelo testado e verificado.
Já vimos, da palavra ex-peri-ência, o sema peri (ao redor de). Falta-nos analisar o sema ex. Ex é uma preposição lati¬na que significa, entre outros conteúdos, "estar orientado para fora", "exposto a", "aberto para". Temos, por exem¬plo, as palavras: ex-clamação, ex-posição, ex-istência. Neste sentido, ex exprime uma característica fundamental do ser humano como ex-istência. Ele é um ser que ex-iste vol¬tado para fora (ex), em diálogo e em comunhão com o outro ou com o mundo. Daí ser a ex-peri-ência não apenas uma ciência, mas uma verdadeira consciência. O objeto se manifesta à consciência, segundo as leis estruturais dessa consciência. A ex-peri-ência nunca é sem pre-su-posições. A consciência tem já pré-su-posições, que são posições to¬madas historicamente ou herdadas da cultura dentro da qual estamos inseridos. A consciência não é vazia, mas toma modelos de interpretação do passado, da sociedade atual e da própria caminhada pessoal. Esses modelos povoam sempre a consciência. Quando a pessoa sai de si (ex) e vai ao encontro dos objetos, ela carrega toda essa carga. A expe¬riência contém, pois, um elemento subjetivo (a ex-istência) e um elemento objetivo (os objetos). Nesse encontro de ambos, na modificação que se opera tanto na consciência como nos objetos, é que se estrutura a experiência. Os mo¬delos já presentes na consciência são confrontados, verificados e testados com a realidade. Podem se confirmar; mas podem também ser destruídos, corrigidos e enrique¬cidos. Experiência envolve todo esse processo doloroso e criativo.
Resumindo, podemos dizer que experiência é o modo como interiorizamos a realidade e a forma que encontramos para nos situar no mundo junto com os outros. Assim entendida, a experiência deve, pois, ser distinguida da vivência. A vivência é a situação psicológica, as disposições dos sentimentos que a experiência produz na subjetividade humana. São as emoções e valorações que antecedem, acompanham ou se seguem à experiência dos objetos que se fazem presentes no interior da psique humana. Vivência não é sinônimo de experiência. É conseqüência e resultado da experiência na psique humana. Ela pertence ao fe¬nômeno total da experiência, mas este é mais amplo e profundo do que aquele, a vivência.
Se experiência é o modo como nos situamos no mun¬do e o mundo em nós, então ela possui o caráter de um horizonte. Horizonte é uma ótica que nos permite ver os objetos, um focai que ilumina a realidade e nos permite descobrir os distintos objetos dentro dela, nomeá-los, ordená-los no rigor de uma sistematização. Por exemplo, atualmente na América Latina, estamos nos habituando a ver tudo sob a ótica da libertação ou da opressão, da inclusão ou da exclusão dos processos globais: a pedagogia, a teologia, a pregação, os sacramentos, os sistemas políticos e os projetos econômicos. Perguntamo-nos quase instintivamente: Até que ponto essa doutrina liberta ou mantém o cidadão marginalizado e excluído? Até que ponto essa op¬ção econômica reforça a inserção no processo de globalização de forma subalterna e assim aprofunda o regime de dependência ou até que ponto rompe com ele e liberta historicamente? A libertação é um horizonte, uma ótica, uma experiência que nos faz descobrir os objetos na sua dimensão de libertação ou de opressão, de inclusão ou de exclusão.
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