Introdução - Meditação sobre a Esperança
1. Qual é o logos da escatologia Cristã?
Por muito tempo, a escatologia era "A doutrina das últimas coisas" ou " A doutrina do éschaton". A compreensão da expressão "ultimas coisas" englobava eventos, sobre o mundo, a história e a humanidade, que irromperiam no fim dos tempos. Entre esses acontecimentos estava a volta de Cristo em Glória, o juízo universal e a consumação do reino, a ressurreição universal dos mortos e a nova criação de todas as coisas. Mas como esses acontecimentos foram adiados até o "último dia", eles, no decorrer da história, perderam sua significação orientadora, animadora e crítica para os tempos vividos antes do fim. Por esse motivo as doutrinas sobre o fim último vegetavam esterilmente nas últimas páginas da dogmática cristã.
À medida que o cristianismo se tornou a organização herdeira da religião do Estado Romano e, teimosamente, reivindicava para si as atribuições e pretenções do mesmo, a escatologia foi deixada de lado, juntamente com sua eficácia mobilizadora e revolucionária da história agora vivida, às seitas entusiastas e fanáticas e aos grupos revolucionários. Enquanto a fé cristã separava de sua vida diária a esperança do futuro, esperança essa que a sustentara no princípio, e transferia o futuro para o além ou para a eternidade - apesar de os textos bíblicos que ela transmitia regurgitar a esperança messiânica futura para a terra - , a esperança aos poucos abandonou a igreja e reiteradamente se voltou contra ela nas formas mais deturpadas possíveis.
Escatologia é identica à doutrina da esperança cristã, que abrange tanto aquilo que se espera como o ato de esperar, suscitado por esse objeto. O cristianismo é total e visceralmente escatologia, e não só como apêndice, ele é perspectiva, e tendência para frente,e, por isso mesmo, renovação, e transformação do presente. O escatológico não é algo que se adiciona ao cristianismo, mas é simplesmente o meo em que se move a fé cristã, aquilo que dá o tom a tudo que há nele,as cores da aurora de um novo dia esperado que tingem tudo o que existe.
A teologia correta deve ser pensada a partir de sua meta futura. A escatologia não deve ser seu fim, mas seu princípio. Mas como falar de um futuro que ainda não existe e de acontecimentos vindouros aos quais ninguém ainda assistiu? Não se trataria aí de sonhos, especulações, desejos e temores, todos necessariamente permanecendo vagos e indefinidos, já que ninguém pode verificá-los? A expressão "Escato-logia" é falsa. Uma "doutrina" sobre as últimas coisas não pode existir, se com "doutrina" se entende uma coleção de afirmações doutrinárias que se conhecem a partir de experiências que podem ser repetidas e feitas por todos. O termo grego Lógos se refere a uma realidade que está aí, que existe sempre e que pode ser conhecida como verdade na palavra que lhe corresponde. Nesse sentido não é possível haver lógos do futuro, a não ser que o futuro seja a continuação ou o retorno periódico e regular do presente.
A escatologia cristã não fala do futuro de modo geral. Ela toma seu ponto de partida em uma determinada realidade histórica e prediz o futuro da mesma, suas possibilidades futuras e sua eficácia futura. A escatologia cristã fala de Jesus e de seu futuro. Conhece a realidade da ressurreição de Jesus e anuncia o futuro do ressuscitado. Por isso, para ela, a fundamentação de todas as afirmações sobre o futuro na pessoa e na história de Jesus Cristo é a pedra de toque para todos os espíritos escatológicos e utópicos.
A maneira como a teologia cristã fala sobre Cristo não pode ser a do Logos grego ou a das afirmações doutrinárias a partir da experiências, mas a das sentenças e afirmações da esperança e das promessas do futuro. As afirmações esperançosas da promessa se antecipam ao futuro. Nas promessas está anunciado o futuro oculto, o qual, por meio da esperança que desperta, age no presente. As afirmações doutrinárias encontram sua verdade na correspondência, verificável, com a realidade presente e experimentável. As afirmações da esperança estão necessariamente em contradição com a realidade presente e experimentável. Elas não resultam de experiências, mas constituem uma condição para que sejam possíveis novas experiências. Não pretendem iluminar a realidade que aí está, mas a realidade que virá.
Presente e futuro, experiências e esperança se contradizem na escatologia cristã, de modo que, por meio dela, o ser humano não chega à correspondência e à harmonia como o presente, mas é impelido para o conflito entre esperança e experiência. Em todo o Novo Testamento, a esperança cristã se dirige para o ainda não visível, o "esperar contra a esperança" que julga o visível e experimentável como uma realidade abandonada por Deus e a ser superada.
A esperança cristã é uma esperança de ressurreição e demonstra sua verdade pela contradição entre o presente e o futuro por ela visualizado, futuro de justiça contra o pecado, de vida contra a morte, de glória contra o sofrimento, de paz contra a divisão. E nessa contradição que a esperança deve mostrar sua força.
Muito mais significativo é apresentar a esperança como o fundamento e a mola mestra do pensamento teológico em geral e introduzir as perspectivas escatológicas na afirmações sobre a revelação de Deus, sobre a ressurreição de Cristo, sobre a missão da fé e sobre a história.
Enviar novo comentário